Profissional e espiritual

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[karma_builder_dropcap color=”golden” style=”round” dropcap=”L”]embro-me de um importante palestrante de um seminário sobre marketing, realizado há mais de uma década, em São Paulo. Sua mãe havia falecido pouco antes de ele apresentar sua palestra. Aquele homem subiu ao palco com confiança, sem esboçar qualquer tipo de fragilidade emocional e deslumbrou a todos com sua apresentação sobre estratégia de venda interativa. Ao deixar o auditório ele foi elogiado por seu desempenho “profissional”.[/karma_builder_dropcap]

Um filme lançado há alguns anos, O Diabo Veste Prada, levantou a questão “vale a pena ser profissional em detrimento da vida pessoal?”. Observe a separação: Vida profissional ou pessoal. Uma passagem do NT nos auxilia a responder a esta questão.

[22] Servos, obedecei em tudo ao vosso senhor segundo a carne, não servindo apenas sob vigilância, visando tão-somente agradar homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor. [23] Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens, [24] cientes de que recebereis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo; [25] pois aquele que faz injustiça receberá em troco a injustiça feita; e nisto não há acepção de pessoas. [4.1] Senhores, tratai os servos com justiça e com equidade, certos de que também vós tendes Senhor no céu (Cl 3.22—4.1).

O texto de Colossenses une duas coisas aparente irreconciliáveis: as “vidas” pessoal (família — Cl 3.18-21) e profissional (Cl 3.22-4.1). A partir deste texto apresento três propostas.

Jogue fora as ideias erradas sobre profissionalismo

Antes de estabelecer um padrão cristão de “profissionalismo”, é preciso derrubar alguns mitos humanistas. De certo modo, o título deste post, Profissional e Espiritual, pode ser considerado um oxímoro ou até mesmo uma contradição. Equivale a dizer banguela dentuça ou doente terminal saudável ou Socialismo democrático ou Capitalismo generoso.

Vejamos algumas definições de “profissionalismo”. O Dicionário Houaiss sugere os seguintes significados:

  • Caráter do que é profissional.
  • Procedimento característico dos bons profissionais (seriedade, competência, responsabilidade etc.).
  • Conjunto de profissionais, sua maneira de ver e agir.
  • Carreira de profissional.

O problema é que as descrições acima não são muito úteis para uma compreensão cristã do profissionalismo. Talvez sejamos ajudados se consultarmos o termo “profissional” em outro dicionário (MICHAELIS, 1998, p. 1704). Teremos então:

  • Relativo, próprio ou pertencente a profissão: Ética profissional.
  • Que prepara para certas profissões: Escola profissional.
  • Que exerce uma ocupação como meio de vida ou para ganhar dinheiro: Soldado profissional.
  • Que exerce, por dinheiro, uma ocupação comumente exercida como passatempo: Futebolista profissional.
  • Exercido como meio de vida, ou pelo ganho, por profissionais ao invés de por amadores: Futebol profissional.

Tais noções de profissionalismo falham em duas coisas: impessoalidade e foco exclusivo em coisas materiais. As proposições humanistas do profissionalismo deixam de ser bíblicas, primeiramente, por que são impessoais. O profissionalismo é descrito como algo puramente mecânico. “Profissional” é, por excelência, aquilo que é impessoal — robotizado, matematicamente programado e, acima de tudo, eficiente: o homem-máquina. O filho de Abílio Fortunato está com uma doença grave. A enfermidade produz uma dificuldade adicional: Abílio tem de gastar parte do salário com remédios. Uma das ideias correntes sobre profissionalismo é que o “profissional” Abílio deve manter-se motivado e produtivo no trabalho, sem deixar-se afetar pelos problemas familiares e financeiros.

O “profissional” pintado pelo humanismo é uma fraude, um mito, algo que não corresponde ao que somos. Nós não somos máquinas, equipamentos para a produção ou peças descartáveis. Somos gente, seres criados conforme a semelhança de Deus (Gn 1.26). Vejam que a ideia de profissionalismo, conforme às vezes é articulada, contradiz não apenas a Bíblia, mas também aquilo que é percebido por estudiosos da psique humana. É o caso de Abraham Maslow, o autor da Teoria das Necessidades Humanas. Maslow percebeu que o ser humano é muito mais do que uma máquina, uma vez que possui necessidades fisiológicas, de segurança, sociais, de estima e de autorrealização.

De acordo com a Bíblia, somos pessoas — seres racionais, emocionais e espirituais —, não meras ferramentas de produção, muito menos “patrimônio” de uma organização. É péssima a frase: “Nossos funcionários são nosso maior patrimônio”, pois nenhuma empresa é dona de ninguém. Se de um lado precisamos das organizações, estas, por sua vez, só funcionam por causa de seu público externo (seus clientes) e interno (seus funcionários e parceiros de negócios). O mercado não é mecânico e sim orgânico — vivo e sistêmico.

Colossenses 3.22 a 4.1 é um desdobramento de Colossenses 3.12-14: o apóstolo Paulo está falando da aplicação prática do amor. Ele nos exorta a marcar a esfera do trabalho com o nome do Senhor Jesus Cristo (Cl 3.17). E o amor é aplicável sempre e somente de forma pessoal. Um líder de igreja que pastoreei dizia o seguinte: “nós não estamos lidando aqui com suas questões pessoais; eu não estou falando com o ‘Misael-pessoa’ e sim com o ‘pastor da igreja’”. Em suma, o “Misael”, a pessoa não deve ser levada em conta, apenas o “ser abstrato institucional”. Isso pode parecer uma forma correta de gerenciar as coisas, mas não é nada bíblico.

As descrições humanistas de “profissionalismo” deixam de ser bíblicas por que são unicamente materiais. Note acima as expressões “como meio de vida ou para ganhar dinheiro”, ou “exercido como meio de vida, ou pelo ganho”. Eis a receita para enfarto e eterna frustração; faça as coisas unicamente por dinheiro. Prepara-se para morrer; faça as coisas unicamente por dinheiro. Anote o passo para a infelicidade plena; faça as coisas unicamente por dinheiro.

A Escritura ensina que tudo o que fazemos deve refletir nossa ligação com as “coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus” (Cl 3.1-2). Nosso trabalho toca a eternidade (Cl 3.23-24). Então, quando eu falo sobre “profissionalismo espiritual”, não me refiro às ideias vigentes forjadas na esteira da revolução industrial. O “profissional” pintado pelo humanismo é uma fraude, um mito que não corresponde ao que somos.

Perceba que você foi designado para a missão

A Bíblia não utiliza a palavra “profissionalismo”. Ela se refere a “chamado” ou “vocação”. Deus nos criou para um propósito e nosso trabalho faz parte das “boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10). Todos nós encontramos sentido no fato de que Deus nos fez para o servirmos em uma área específica. Trabalhamos “como para o Senhor e não para homens” (Cl 3.23). O profissionalismo “cristão” nada mais é do que o exercício diário do mandato cultural da criação. Fazemos algo para Deus e nos regozijamos nisso.

Isso tem um impacto sobre nosso ideal de chamado missionário. Você é chamado por Deus para servir em dois “campos”. O primeiro é sua família (Cl 3.18-21). O segundo campo é o seu trabalho (Cl 3.22-4.1). Você pode tentar fugir a estes chamados, mas será semelhante a Jonas. Deus vai trazê-lo de volta ao ponto de sua vocação original. É assim que as coisas funcionam no reino de Deus. Faço questão de reforçar isso pois é muito forte a tendência de enxergarmos o universo divido entre “coisas reais” — aqui entra o trabalho — e “coisas espirituais” — tudo o que se relaciona com o “reino de Deus” e a “igreja”. Quando eu assumo que eu fui criado para fazer dinheiro enquanto o missionário em tempo integral foi criado para ganhar almas eu divido erroneamente as coisas. Um pastor em tempo integral, um obreiro transcultural ou alguém que se dedica a um negócio ou emprego são todos missionários vocacionados. Em suma, ser profissional e espiritual nada mais é do que praticar fielmente nossa vocação em qualquer esfera da vida.

Compreenda que você foi designado para a produção

Isso pode parecer contraditório ao que eu disse no primeiro ponto. Ali eu afirmei que não somos meras ferramentas impessoais de produtividade. Uma leitura cuidadosa do texto de Colossenses permite-nos concluir, no entanto, que conscientes de nossa humanidade redimida e singularidade em Cristo, devemos ser saudavelmente produtivos.

O servo descrito em Colossenses 3.22-24 é proativo. Ele toma iniciativas com a fim de fazer o melhor. Em outras palavras, ele não funciona somente quando o chefe “dá corda”; ele não manipula dados, ele não “finge que trabalha” (v. 22); ele não rouba o tempo durante o expediente. Nesses termos, a carta de Paulo aos Colossenses nos fornece quatro dicas de profissionalismo espiritual.

Aprenda a seguir instruções. “Servos, obedecei em tudo ao vosso senhor segundo a carne” (v. 22). O cristão maduro obedece àqueles que estão sobre ele em uma cadeia de comando. As dificuldades nessa área decorrem de pressa (agir antes de compreender o que fomos solicitados a fazer) ou rebeldia.

Agrade ao seu patrão. “[…] não servindo apenas sob vigilância, visando tão-somente agradar homens” (v. 22). Este versículo tem sido entendido por muitos como uma afirmação de que não devemos nos preocupar, em nossos locais de trabalho em agradar aos homens. Um profissional cristão deveria trabalhar sem nenhuma preocupação em agradar seu chefe — o importante seria agradar unicamente ao Senhor. O texto bíblico, porém, ensina que o errado é trabalhar pensando em “tão-somente agradar homens”, ou seja, além de agradar ao seu senhor humano, é fundamental que se agrade a Deus, Senhor dos senhores. Uma leitura da história do patriarca José demonstra que ele deixou um “bom rastro”, ou seja, trabalhou de modo a agradar seus senhores. Agradar ao chefe é aplicação obediente do ensino cristão.

Seja honesto. “[…] em singeleza de coração, temendo ao Senhor” (v. 22). A expressão “singeleza de coração” implica em sinceridade, ausência de engano ou malícia. O profissional cristão deve ser alguém de uma só face, que inspire confiabilidade. Um cristão deve saber como comportar-se naquelas terríveis conversas durante a hora do “cafezinho”, quando a maior parte dos funcionários aproveita para falar mal de seus patrões e “colocar areia” nos processos das mudanças institucionais.

Trabalhe motivado. “Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens” (v. 23). A perdição eterna é algo terrível, mas há duas coisas que podem ser descritas como um verdadeiro inferno na terra: Um lar onde existe discórdia e trabalhar sem motivação. Imagine trabalhar arrastando-se, forçado, apenas porque se precisa do dinheiro; trabalhar para pagar as contas e nada mais. Quando trabalhamos sem paixão, adoecemos. Viver alienado da comunhão com Cristo; viver frustrado quanto aos relacionamentos íntimos (família; Cl 3.18-21) e viver frustrado quanto ao que se é ou faz (trabalho, Cl 3.22-4.1) é, de fato, não viver, é caminhar estando morto, é existência de zumbi. Isso é insuportável.

O cristão trabalha — e trabalha bem. Li o livro, A Última Grande Lição: O Sentido da Vida, de Mitch Albom (Sextante), que retrata a experiência de um professor universitário acometido de esclerose lateral amiotrófica. Trata-se de uma enfermidade que mata aos poucos; o corpo da pessoa vai se desligando de baixo para cima, até o ponto em que falece por asfixia. Esmagado por um diagnóstico mortal, Albom podia mergulhar em sua própria amargura. Ao invés disso ele entendeu que tinha de ajudar as pessoas a valorizarem algumas coisas verdadeiramente importantes. Ainda que eu discorde de algumas coisas que ele escreve, admiro sua disposição de permanecer produtivo mesmo sofrendo sob uma doença terminal. Repetindo, ser profissional e espiritual nada mais é do que exercitar diariamente o mandato da criação — fazemos algo para Deus e nos regozijamos nisso.

Conclusão

Um dos executivos mais bem-sucedidos da atualidade é disléxico. A dislexia é um distúrbio ou transtorno de aprendizagem na área da leitura, escrita e soletração. Tal líder assume publicamente sua doença. Não assume ares de invulnerabilidade. Pelo contrário, ele utiliza sua dificuldade pessoal como um exemplo para motivar os funcionários de sua empresa. Estou falando de John T. Chambers, Chairman e CEO da Cisco, uma grande empresa de desenvolvimento de sistemas. Chambers exemplifica o profissional que não tem vergonha de demonstrar que possui uma deficiência, que é humano, não homem-máquina.

Com todo o respeito, o palestrante citado no início deste artigo pode ter sido profissional aos olhos dos homens, mas deixou de ser humano. A mãe vem antes do marketing.

O dilema do filme O Diabo Veste Prada é fácil de resolver. Será que existem, de fato, as “vidas” pessoal e profissional? De fato nós só possuímos uma vida e esta não é dividida em departamentos estanques. Nossa vida é descrita pela Bíblia como vida em e para Deus. É vida para a glória dele em todas as esferas. A totalidade de nossas experiências corresponde a somente uma vida em “nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai” (Cl 3.17).

Trabalhar por dinheiro é bíblico até certo ponto. O dinheiro tem seu lugar. A busca de uma estabilidade e organização da vida financeira é legítima. Fazer planos e agir com base neles faz parte do cumprimento do mandato cultural. No entanto, as coisas mais importantes não podem ser compradas: Significado, alegria, esperança e amor. Isso tudo vem de Deus, por meio de Cristo. Tudo isso se torna concreto no enlace da aliança com nossas famílias, nossos irmãos e nosso próximo.

Eis a queda do império das trevas: Deus na vida e vida na comunhão uns com os outros. Eis a luz que brilha na escuridão: Trabalhar motivado pela vocação divina — todos nós: pastores, presbíteros, diáconos, líderes de departamentos da igreja, pedreiros, carpinteiros, marceneiros, vigilantes, educadores, administradores, advogados, comunicadores, marqueteiros, jornalistas, geógrafos, geólogos, historiadores, profissionais de serviços gerais, empresários, diaristas, aposentados e estudantes.

Oro para que Deus nos conduza nessa caminhada verdadeiramente cristã, em nome de Jesus. Amém.

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