Frugalidade (atualizado)

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De acordo com o Dicionário Aurélio Século XXI, frugalidade é a qualidade de quem ou do que é frugal. Entenda-se frugal como algo ou alguém “sóbrio, simples, modesto” e frugalidade como uma certa qualidade de leveza existencial, tal como mencionada no primoroso texto de Trindade Coelho: “arrancha-se à sombra das árvores comendo a frugal refeição” ou como a belíssima letra de Cuitelinho, (folclore recolhido por Paulo Vanzolini e Antônio Xandó; para quem não sabe, cuitelinho é sinônimo de colibri ou beija-flor):

Cheguei na beira do porto, onde as “onda” se “espaia”
As garças dá meia “vorta” e “senta” na beira da praia
Meu cuitelinho não gosta que o botão de rosa caia
Ai, quando eu vim da minha terra, despedi da “parentaia”
Eu entrei no Mato Grosso, dei em terras “paraguaia”
Lá tinha revolução, enfrentei forte “bataia”
A tua saudade corta como aço de “navaia”
O coração fica aflito
bate uma, a outra “faia”
os “óio” se enche d’água
que até a vista se “atrapaia”

A propósito, morreu no início desta semana, aos 70 anos, de infarto, José Ramiro Sobrinho, o Pena Branca, um dos integrantes da dupla Pena Branca e Xavantinho, que interpretava Cuitelinho. O vídeo sobre a morte do cantor e a música podem ser vistos e ouvidos no fim deste post.

A vida carece de frugalidade. Mesmo urbanóides como nós, que vivemos lutando pela sobrevivência, imersos no estresse do mundo globalizado e tecnológico, precisamos ser frugais — simples, sóbrios, leves e abertos aos sentimentos e à beleza das coisas criadas, à medida em que caminhamos confiantes na Providência Divina.

“Não andeis ansiosos”, disse-nos Jesus (Mateus 6.25), mas eis que nos entregamos ao medo, às preocupações, às reflexões escabrosas que nos convidam ao cotidiano pesado e às angústias interiores. Eis-nos apressados e insensíveis, imersos no mundo da sofisticação, na comunidade da fibra ótica onde há pouco espaço para as garças, os botões de rosa e as saudades cortantes como “aço de navaia”. Um mundo sem vida profunda, sem afetividade e, por conseguinte, “sem Deus”.

Somos convocados, nesta hora, a repensar valores e estilos de vida. É preciso abandonar o estereótipo do homo consumus (o ser consumidor), a fim de assumirmos o modelo do discipulado, da vida mais simples, frugal mesmo.

Li certa vez, em um jornal de Brasília, uma reportagem sobre um senhor que chegou aos 115 anos de idade. Perguntado acerca do “segredo” de sua longevidade feliz, ele afirmou: “é só levar uma vida simplesinha”. No seu mais de um século de experiência, ele estava cobertíssimo de razão.

Vídeo sobre o falecimento de Pena Branca:

Para quem deseja ouvir Cuitelinho:

[podcast]http://www.misaelbn.com/audios/cuitelinho.mp3[/podcast]

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Resposta

  1. Avatar de Michele
    Michele

    Amo músicas sertanejas de raiz. São ricas de sentimento e de sabedoria!!!

    Foi uma grande perda a morte do Pena Branca!!

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