Grupos pequenos: Modismo ou estratégia pertinente?

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Várias igrejas têm considerado a possibilidade de desenvolver o ministério com grupos pequenos, familiares ou células. A explosão de movimentos tais como o G-12 e similares, porém, divide opiniões. O processo de implementação de grupos, relativamente simples em ajuntamentos cristãos independentes, é complexo em igrejas com culturas consolidadas. Seriam os grupos pequenos uma estratégica bíblica e viável ou trata-se de mero modismo?

Principais objeções aos grupos pequenos

Tenho refletido sobre algumas objeções levantadas nos meios cristãos tradicionais. Aqui listo seis destas objeções:

  1. Os grupos pequenos fazem parte de uma estratégia empresarial.
  2. Os grupos pequenos integram um plano maligno de conformação.
  3. Os grupos pequenos colocam sobre pessoas ocupadas fardos muito pesados.
  4. Os grupos pequenos invadem a privacidade.
  5. Os grupos pequenos cerceiam as iniciativas tradicionais.
  6. Os grupos pequenos enfatizam exageradamente o crescimento numérico da igreja.

Analisemos cada uma dessas asserções.

Os grupos pequenos fazem parte de uma estratégia empresarial

A liberdade de consciência reformada é o espaço amplo para responder às diversas situações da vida orientado unicamente pela Escritura e não pelas tradições humanas, mas a comunidade de fé nos ajuda nessa caminhada (Rm 1.11-12; Hb 10.24).

Há quem afirme que, com os grupos pequenos, as igrejas assumem um modo de funcionamento empresarial, uma vez que os grupos, com sua ênfase no evangelismo, são voltados para resultados. Dizem que os grupos estabelecem um acompanhamento individual de desempenho e isso é administração copiada ou adaptada da Gestão da Qualidade Total, proposta por William Edwards Deming e da proposta de Organização Voltada Para o Conhecimento, de Peter M. Senge. Afirma-se ainda que a IPCG está meramente copiando os modelos de mega-igrejas tais como a Comunidade de Saddleback, pastoreada por Rick Warren (Igreja com Propósitos) ou a Comunidade Willow Creek, pastoreada por Bill Hybels (modelo de igreja multiministerial).

Esta primeira crítica é pertinente. Toda igreja precisa saber se realmente é direcionada pela Palavra de Deus infalível ou simplesmente está copiando desnecessariamente modelos organizacionais humanistas. O argumento porém, subentende que a igreja deve basear seu funcionamento unicamente na Bíblia e jamais na administração secular. Além disso, a igreja não deve preocupar-se com desenvolvimento pessoal e produtividade, mas ser, exclusivamente, um espaço de refrigério e atendimento de necessidades.

Compreendo que o fundamento do trabalho com os grupos pequenos é antes de tudo bíblico e não empresarial. Desenvolvi essa questão no segundo capítulo do Manual de Grupos Pequenos da IPCG.

Reconheço ainda que o acompanhamento individual, registrado em relatórios e confirmado por uma supervisão, exigido pela maioria dos modelos de implantação de grupos pequenos, assemelha-se a alguns métodos de gerenciamento secular. Creio, porém, que não é pecado utilizar, na igreja, métodos administrativos pertinentes.

Perceba-se que igrejas utilizam métodos contábeis para conferir e fechar balancetes de tesouraria, métodos pedagógicos para o ensino e métodos artísticos para treinar e conduzir grupos musicais. Em algumas denominações os trabalhos com crianças, adolescentes, jovens, mulheres e homens são organizados segundo organogramas (presidente, vice-presidente, secretários, tesoureiro). Reuniões são registradas em livros de atas. Tome-se o exemplo do governo presbiteriano, regulamentado pela Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil. O modelo de administração da IPB é uma amálgama das teorias clássica e neoclássica, do modelo burocrático de administração, do sistema de governo conciliar e da doutrina bíblica do chamado para o serviço cristão. Isso é assim simplesmente porque a Bíblia não fornece modelos detalhados para administração da igreja.

Parece que há aspectos da vida eclesiástica que exigem encaminhamentos para os quais não são encontradas instruções bíblicas explícitas e exigem a utilização de métodos extra-bíblicos. Tais métodos devem ser aplicados sempre com cuidado e contínua submissão aos princípios gerais da Palavra de Deus. A Confissão de Fé de Westminster (I.VI) abre espaço para o uso prudente e bíblico de conhecimentos e técnicas seculares:

Há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comuns às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras da Palavra, que sempre devem ser observadas (ênfases acrescentadas).

É útil, nesse ponto, a opinião de Calvino (2006, p. 34):

Se o Senhor nos quis deste modo ajudados pela obra e ministério dos ímpios na física, na dialética, na matemática e nas demais áreas do saber, façamos uso destas, para que não soframos o justo castigo de nossa displicência, se negligenciarmos as dádivas de Deus nelas graciosamente oferecidas.

Outrossim, reitero que o modo de funcionamento dos grupos não é empresarial mas, sobretudo, reflete um modelo bíblico, especificamente o pastoreio compartilhado estabelecido por Moisés em Êxodo 18.13-27. Não é seguido o paradigma de Deming ou Senge, mas a antiga, escriturística e eficiente administração de Moisés.

Um segundo ponto da objeção diz respeito à questão da legitimidade da insistência em produtividade. Sobre isso discorrerei adiante. Um último aspecto, relacionado ao direcionamento das igrejas para um modelo de mega-igreja, será também analisado a seguir.

Os grupos pequenos integram um plano maligno de conformação

Essa objeção é tão absurda que não merece longa refutação. Trata-se de uma ponderação delirante baseada em uma teoria de conspiração. Afirma-se, por exemplo, que todas as igrejas que assumem trabalhos com grupos pequenos participam de um amplo movimento subliminar de cooptação de pessoas para o domínio do Anticristo. Argumenta-se ainda que a distribuição de uma igreja em grupos favorece a heresia e a manipulação de mentes de acordo com princípios da dialética materialista. Tais idéias têm sido publicadas em sites fundamentalistas, tais como A Espada do Espírito, disponível em http://www.espada.eti.br.

Os grupos são simples estrutura para a evangelização e o conhecimento e prática da Palavra de Deus. Afirmar mais do que isso é ir além do que tem sido ensinado e trabalhado em muitas igrejas sérias comprometidas com o Senhor e sua Palavra.

Os grupos pequenos colocam sobre pessoas ocupadas fardos muito pesados

Voltemo-nos agora para o tema da legitimidade da insistência em produtividade evangelística. Ouço com freqüência que a igreja não deve preocupar-se com amadurecimento pessoal ou produtividade evangelística. As pessoas já são muito cobradas ou pressionadas semanalmente, de modo que precisam de refrigério espiritual e não mais trabalho. Igrejas devem atender necessidades e não colocar sobre seus membros fardos impossíveis de serem carregados.

Numa comunidade urbana as realidades são mais complexas. Há menos tempo para diálogos calmos, mais demandas de toda ordem e maior pressão na vida profissional e acadêmica.

Esse é um questionamento que precisa ser valorizado, uma vez que o Redentor criticou os líderes religiosos de seu tempo, que colocavam sobre as pessoas cargas que eles mesmos não dispunham-se a carregar (Mt 23.4; Lc 11.46). Ele bateu de frente com a religiosidade legalista que esmagava o ser humano e propôs uma fé libertadora, que colocava sobre seus seguidores um fardo leve (Mc 2.27-28; Mt 11.28-30). Isso significa que onde quer que o Cristianismo se mostre opressor, ele deixou de ser Cristianismo bíblico. A autêntica fé cristã é sempre libertadora, alegre, dinâmica e repleta de vida (Ne 8.10; Sl 100.2; Fp 2.12-18 e 3.1; Cl 3.23). Para o seguidor de Jesus Cristo, os mandamentos dos Senhor não são um peso, mas verdadeiro prazer (Sl 1.2; 1Jo 5.3).

Tais verdades bíblicas, porém, não contrariam a idéia de que os cristãos precisam assumir responsabilidades e trabalhar na seara divina. O serviço amoroso a Deus é o que diferencia uma igreja fiel e missionária de uma igreja acomodada (Ap 3.14-16). De acordo com a Escritura, a igreja não é um ambiente de relaxamento, mas um corpo de obreiros (1Co 12.27; 1Pe 2.9). Isso pode ser confirmado a partir de algumas asseverações.

A igreja deve preocupar-se, sim, com o amadurecimento pessoal. A Bíblia ensina que a mutualidade deve fazer parte da vida cristã (Rm 12.9-16; Gl 5.13; Ef 4.32-5.2; Fp 2.3-4; Cl 3.12-17; 1Ts 5.111Pe 3.8-9; 2Pe 1.3-8; 1Jo 3.11-12). A confirmação dessa mutualidade é a prática da disciplina, considerada pelos pais reformadores como uma das marcas da verdadeira Igreja (Mt 18.15-20; Gl 6.1-2). Ademais, os cristãos são salvos para testemunhar do evangelho, fazendo discípulos (Mt 28.18-20). A Escritura revela que o crescimento na graça, bem como o trabalho e fruto espiritual são resultados naturais da verdadeira conversão (Jo 15.1-4 e 16; 1Ts 1.2-10; 2Pe 3.18). A ausência de tais frutos têm conseqüências que precisam ser seriamente consideradas. A pessoa espiritualmente produtiva receberá seu galardão (Mt 25.19-23). Quem comparece às reuniões da igreja apenas para avaliar o desempenho dos irmãos e “receber bênçãos”, sem nunca envolver-se no ministério, ouvirá uma palavra final de condenação (Mt 25.24-29). Igrejas que não se preocupam em averiguar esses sinais de saúde espiritual, que empenham-se apenas em criar ambientes de refrigério, desobedecem a Deus, deixam de funcionar como o corpo de Cristo e tornam-se meras corporações de auto-ajuda religiosa.

Mesmo o atendimento de necessidades e o fornecimento de refrigério exigem trabalho voluntário, ou seja, comprometimento com o corpo. Tomemos por exemplo, um jovem que chegue a uma igreja com a vida totalmente pulverizada. É importante que haja alguém que vá até ele para falar sobre o evangelho e, caso ocorra conversão, o auxilie no discipulado. Isso exige dedicação de tempo e energia, ou seja, dá trabalho (At 20.18-21). O Senhor Jesus chamou a atenção dos discípulos para a quantidade de pessoas que estavam prontas para ouvir do evangelho mas não estavam sendo alcançadas. Os discípulos precisavam discernir os tempos e lançar-se imediatamente à colheita (Jo 4.34-38; 1Co 3.6-9).

A Palavra de Deus e, conseqüentemente, o Cristianismo, oferece refrigério aos servos trabalhadores e incômodo aos religiosos acomodados. Os discípulos dedicados recebem de Deus a promessa de consolo e descanso, enquanto os indolentes são chamados a despertarem de seu sono, a buscarem a santidade e a engajar-se na obra do Senhor (Rm 13.11-14; Ap 14.13).

Observe-se ainda, que os grupos pequenos, corretamente implementados, diminuem e não aumentam o trabalho. O princípio paulino relacionado à coleta levantada entre os coríntios aplica-se perfeitamente à carga de trabalho produzida pelos grupos: “Porque não é para que os outros tenham alivio, e vós, sobrecarga; mas para que haja igualdade, suprindo a vossa abundância, no presente, a falta daqueles, de modo que a abundância daqueles venha suprir a vossa falta, e, assim, haja igualdade” (2Co 8.13-14).

O grande problema da maioria das igrejas é o fato de uma quantidade reduzida de pessoas ter de realizar todas as atividades, enquanto uma maioria permanece como meros espectadores. Por exemplo, um conselho de uma igreja de quatrocentos membros, formado por um presbítero docente e seis presbíteros regentes atuantes, pode verificar que existem setenta pessoas necessitando de visita pastoral. Os presbíteros assumem, a partir desta constatação, cada um, a visitação de dez pessoas. Se cada um conseguir realizar três visitas por semana, os contatos preliminares de pastoreio serão feitos em pouco mais de três semanas. No final destas três semanas, haverão pelo menos mais vinte ou trinta novas pessoas a serem visitadas, e isso se repetirá infinitamente. Os presbíteros teriam de dar conta das visitações ao mesmo tempo em que encaminhariam todo o restante do gerenciamento da igreja. Resultado: Nem todas as pessoas seriam bem pastoreadas, surgiria murmuração no corpo pela falta de atendimento das necessidades, ao mesmo tempo em que os líderes presbiteriais terminariam esgotados mental, emocional, física e espiritualmente.

Com os grupos pequenos, todas as setenta pessoas poderiam ser visitadas em apenas uma semana, os presbíteros estariam livres na semana seguinte para atenderem às novas demandas e a vida da igreja transcorreria com menos esforço e mais saúde espiritual. Sem dúvida os grupos pequenos significam mais trabalho para as pessoas que não assumiram ainda nenhuma atividade na igreja. No entanto, para aqueles que encontram-se ministerialmente sobrecarregados, significam atendimento de necessidades mais efetivo com menor esforço.

Os grupos pequenos exigem de uma a três horas de dedicação semanal para reuniões e outras atividadesão, ou seja, 1.79% do total de horas da semana. Quanto tempo na semana é gasto, por exemplo, com a TV, interação em sites de relacionamento ou outros entretenimentos? Quanto tempo é dedicado a estudos, trabalho e atividades voltadas para o lucro pessoal? Quanto tempo é dedicado não apenas para os cultos, evangelização e serviço de Deus? É preciso rever as prioridades de modo a abrir espaço para as coisas verdadeiramente importantes. Há o perigo de afirmar que não há tempo para os grupos, que estes exigem muito e sobrecarregam, quando, na verdade, o que existe é um centro existencial defeituoso. O discípulo de Jesus reestrutura a sua agenda de modo a atender às demandas do reino de Deus (Sl 37.1-7; Mt 6.31-33).

Todas essas considerações indicam que os grupos pequenos, com sua ênfase no pastoreio cuidadoso e na evangelização pessoal, não impõem necessariamente uma carga excessiva de atividades. Pelo contrário, apontam para uma agenda compartilhada que pode ser seguida pelos discípulos com alegria, a partir de pequenas adaptações.

Os grupos pequenos invadem a privacidade

A quarta objeção é a de que os grupos pequenos, com seu foco no mútuo pastoreio, constituem uma invasão de privacidade. Afirma-se, destarte, que o princípio calvinista da liberdade de consciência é ferido pela intrusão de outras pessoas nas questões de foro íntimo e privado. A igreja deixa de ser uma comunidade de participação voluntária e torna-se um grupo de policiamento radical dos pensamentos e costumes. Termina a liberdade individual e todos tornam-se bonecos manipulados em um sistema de alienação.

Se isso fosse verdade, os grupos seriam, de fato, prejudiciais porque a igreja é o ajuntamento de indivíduos singulares, cada um com sua história, herança cultural, perplexidades, modo de administração de problemas e idiossincrasias. A fé bíblica atribui valor ao indivíduo; ninguém no corpo de Cristo é insignificante (1Co 12.12-27). Por isso mesmo, as delicadas nuances da vida de cada discípulo com o Senhor precisam ser consideradas. Jesus Cristo não trata com duas pessoas de forma absolutamente igual; cada ser humano é um universo a ser respeitado (Mc 3.1-3, 5.6-20, 7.31-36; Lc 19.1-5; Jo 3.1-3, 4.10, 8.10-11; passim). Assim sendo, igrejas reformadas sérias prosseguem respeitando a privacidade e a consciência individuais.

Por outro lado, liberdade de consciência não equivale a individualismo narcisista. A liberdade de consciência reformada é o espaço amplo para responder às diversas situações da vida orientado unicamente pela Escritura e não pelas tradições humanas, mas a comunidade de fé nos ajuda nessa caminhada (Rm 1.11-12; Hb 10.24). Liberdade de consciência não é o mesmo que independência do corpo; a privacidade bíblica é vivida no âmbito corporativo, que é o povo de Deus (Hb 10.25).

Os grupos pequenos cerceiam as iniciativas tradicionais

Igrejas que implementam os grupos pequenos de forma consistente percebem que estes forçam mudanças. Algumas coisas da igreja não podem mais ser feitas como antes. Isso não envolve, necessariamente, um mal.

Se percebemos que, para vivermos a fé mais plenamente, algum procedimento pode ser aperfeiçoado, temos de fazer as mudanças necessárias. Se algo que fazemos há anos revelar-se inadequado ou até prejudicial, deve ser revisto ou deixado de lado. O apóstolo Paulo, ao considerar sobre a necessidade de constante aprimoramento, declarou que deixava para trás as coisas do passado e prosseguia para um alvo muito superior (Fp 3.12-16). Aqui, mais uma vez é valiosa a palavra de Calvino (Ibid., p. 47):

No reino de Deus a sua verdade singular e eterna deve ser ouvida e cumprida; contra a verdade divina não tem valor nenhuma prescrição, nem a ditada por seus longos anos de existência, nem por costume antigo, nem por conjuração, qualquer que seja.

Na igreja do Senhor, não devemos fazer algo simplesmente porque é um costume, mas porque é um costume que nos auxilia a glorificar ao Senhor no cumprimento de sua missão.

Os grupos pequenos enfatizam exageradamente o crescimento numérico da igreja

A última objeção é muito séria. Há quem diga que, nas igrejas que trabalham com grupos pequenos, predomina uma preocupação exclusiva com crescimento numérico. Estariam essas igrejas dedicadas a projetos de mega-igrejas, quem sabe visando obter notoriedade? Haveria, por trás dos grupos pequenos, um pensamento de desenvolver superestruturas semelhantes à Comunidade de Saddleback ou Willow Creek? Será que há, por trás da “fachada dos grupos”, um plano astucioso para fulminar as igrejas simples? Será que os grupos encerram uma idéia de criar uma igreja sofisticada, elitista, burocrática e impessoal?

Entendo que o trabalho com grupos pequenos não tem a ver, necessariamente, com projetos de mega-igrejas, mas sim, com o atendimento de necessidades pastorais e evangelísticas.

Pastoralmente, sei que os membros de igrejas precisam ser melhor acompanhados. Igrejas recebem centenas de membros a cada década, que simplesmente desaparecem sem deixar rastros. Nem todas são visitadas nem devidamente acompanhadas, simplesmente porque o modelo de visitação dependente unicamente do pastor não é ordenado biblicamente e, portanto, não funciona.

A solução bíblica para o pastoreio comunitário encontra-se no modelo de liderança de Moisés, descrito em Êxodo 18.13-27. Juntando a esse modelo o exemplo da igreja em Atos, é possível afirmar que os cristãos são sustentados pela graça de Deus que opera no contexto da comunhão (At 2.42-47, 4.32-35). Os grupos fornecem oportunidades singulares para o mútuo pastoreio, permitindo acompanhar com mais zelo cada membro da igreja.

Evangelisticamente, cada cristão deve ser uma testemunha. Identificar-se como cristão e não compartilhar o evangelho é um procedimento anômalo. Estar filiado a uma igreja há anos sem nunca ter evangelizado é não apenas estranho, mas sinaliza um problema a ser solucionado, cuja origem pode ser simples constrangimento, falta de orientação ou treinamento, pecados não tratados ou ausência de conversão. Isso quer dizer que, corporativamente, uma igreja não precisa ser grande, ela precisa ser evangelística.

Qual será o resultado da prática da mutualidade e comunhão? A igreja agradará a Deus e semeará o evangelho (Mc 16.15; Rm 10.14-15). Nesse processo, ela crescerá em intimidade com o Senhor, maturidade e vitalidade espiritual. Os cristãos são responsáveis por trabalhar na plantação divina. Pastores devem trabalhar para assegurar a obediência às ordens do Mestre. O crescimento ocorrerá ou não, segundo a vontade do Senhor (1Co 3.6-7).

Além disso, cada igreja é única. O pastor ou líder que deseja copiar um modelo de outra igreja certamente se frustrará. Escrevi sobre isso em março deste ano, no artigo Marcas, Modelos e Singularidade Ministerial:

É aqui que a Igreja difere de uma empresa. Uma organização pode até ser “salva” da falência contratando serviços de uma consultoria. Uma igreja não pode ser restaurada ou fortalecida apenas importando modelos de ministérios, porque cada líder e comunidade possuem singularidades.

Mais um esclarecimento. Os grupos pequenos não fulminam a igreja simples, mas resgatam-na. Os grupos não estabelecem igrejas sofisticadas, elitistas, burocráticas ou impessoais. Pelo contrário, eles permitem o entrelaçamento pessoal, a vivência de uma comunhão real e a possibilidade de os membros visitarem-se, compartilharem suas vidas, fornecerem e receberem suporte em todos os aspectos, enfim, aprofundarem a experiência comunitária em meio a uma sociedade que insiste no individualismo consumista e indiferente. Participar dos grupos significa encontrar-se com os irmãos, amá-los, conhecê-los por seus nomes, tomar conhecimento de suas alegrias e tristezas, enfim, manter acesa uma chama de amizade sincera e transformadora, de acordo com a proposta simples do evangelho.

Os grupos oferecem uma estrutura adequada às igrejas nos centros urbanos. Nas comunidades rurais um pastor acorda pela manhã, passa pelas casas dos crentes durante o dia, dirige cultos à noite e encaminha as rotinas dos finais de semana, sem muitos atropelos. Numa comunidade urbana as realidades são mais complexas. Há menos tempo para diálogos calmos, mais demandas de toda ordem e maior pressão na vida profissional e acadêmica. Como foi dito acima, mais pessoas podem ser melhor supridas e capacitadas para a evangelização através de uma estrutura de ajuntamentos menores e pastoreio descentralizado.

Como foi dito, os grupos pequenos reproduzem o que podemos chamar de “modelo de liderança de Moisés”. O pastor pastoreia diretamente um grupo menor, normalmente dos líderes sob seus cuidados. Toda a igreja trabalha o pastoreio a partir dos líderes estabelecidos nos grupos, que são supridos pelos supervisores e pastor efetivo, sempre que houver necessidade (Êx 18.13-27).

Conclusão

Perceba-se que os grupos pequenos não introduzem qualquer novidade radical. O que se tem é um sistema ou estrutura que permite caminhar na direção de igrejas saudáveis.

Seriam os grupos pequenos uma estratégica bíblica e viável ou trata-se de mero modismo? Sim, há base bíblica para a implantação de grupos pequenos em qualquer igreja. Os grupos são viáveis e, devidamente implementados, produzem desenvolvimento eclesiástico equilibrado. Sem dúvida eles podem ser abraçados como moda passageira, mas, adequadamente compreendidos e assumidos, podem colaborar para que os cristãos sirvam uns aos outros com muita humildade e amor, na direção da glorificação, enquanto colaboram para o estabelecimento do reino messiânico, como membros ativos e alegres de suas igrejas.

Referências Bibliográficas

ASSEMBLÉIA DE WESTMINSTER. Símbolos de Fé, Contendo a Confissão de Fé, Catecismo Maior/Breve. São Paulo: Cultura Cristã, 2005. 272 p.

CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa. Trad. Odayr Olivetti. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 256 p. v. 1.

NASCIMENTO, Misael B. Marcas, Modelos e Singularidade Ministerial. Brasília: Blog, 2006. Disponível em: . Acesso em 12 de Junho de 2006.

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